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2018-03-16 Aposentadoria: a dor do engano

Dona Rita caiu de inocente. A filha convenceu-a a retirar empréstimo, através da aposentadoria, dando a certeza de que no mês seguinte estaria empregada. A filha não conseguiu trabalho e não reembolsou a idosa. Na boca do caixa tentou justificar, mas o atendente é técnico e sabe: o banco quer garantias. No caso, antes do saque, a sua parte é retirada, não importando as demais necessidades da cliente...

Uma história que se repete em todos os inícios de mês, quando algum parente enche os olhos e usa da boa fé do idoso para conseguir um dinheiro garantido e que não se sente na responsabilidade de devolver. Do salário de, aproximadamente, R$ 950, sai uma parte significativa que já tinha destinação, mas que se transforma num pesadelo porque dos troquinhos contados falta uma parte.

Na inocência de quem conta um drama, dona Rita não desconfiava da intenção da filha. Achava que o banco tinha a obrigação de resolver seu problema. Afinal, tinha muito dinheiro e seus mirrados vencimentos não iriam fazer diferença no conjunto de seus gastos. Não consegue entender que tratou com uma máquina, incapaz de gerar uma ação que não obrigue a uma reação, sempre beneficiando o sistema financeiro.

O mesmo sistema que está longe de humanizar seu atendimento e tornar amigável a relação entre o aposentado/pensionista e o sistema dos caixas, especialmente os eletrônicos. Diversas pessoas já contaram que começam a suar frio quando se aproximam das máquinas. Pela idade, são mais demoradas nas suas ações, precisando ler as mensagens, tentar compreendê-las e buscar respostas.

Para não parecerem extremamente lerdos e atravancar - sempre com reclamações de pessoas mais jovens e apressadinhas -, preferem aguardar a abertura das agências e enfrentar uma fila de atendimento. Ainda é preciso saber onde guardou a senha, dada com a recomendação de que memorizasse e rasgasse o papel. Contrassenso numa idade em que a memória embaralha a lembrança, inclusive dos números.

Enganada pela filha, maltratada pelo banco, dona Rita ainda enfrenta a rua e o receio de que possa ser assaltada antes de pegar o próximo ônibus. Se conseguir um lugar para sentar, vai ter que planejar o pouco que lhe restou. Durante toda a vida pensou que, um dia, teria direito de se aposentar e aproveitar da melhor forma. A dor do engano: beirando seus 80 anos, sabe que não vai ser assim.

Lavou muita roupa, limpou chão e janelas, cuidou dos filhos dos outros. Sonha com o dia em que sua preocupação seja apenas ajudar nas lides da casa, seu tricô, encontrar com as amigas. Não conhece a expressão “envelhecer com dignidade”, mas precisa de respeito e consideração. A dignidade de envelhecer é proporcional ao reconhecimento que se tem pelas marcas num rosto que contam a história de toda uma vida!

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Manoel Jesus

Educador



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